Já vi este movimento ser apresentado de duas formas: como um movimento de união das direitas e como um movimento de união do espaço não-socialista. Eu prefiro dizer que é um movimento do espaço não-socialista. Eu, como muitos liberais, não me gosto de afirmar de direita (nem de esquerda, nem de centro, note-se). Pese embora estar certo de que não sou de esquerda, que os meus maiores adversários políticos em Portugal estão todos à esquerda, dificilmente um liberal se sentirá confortável em afirmar-se de direita num país que nos habituou a ver a direita como socialista e conservadora. Num país que viu a direita cavalgar de forma permanente as causas erradas, mesmo que tivesse outras certas para defender. Foi a direita que no princípio deste século andava a defender a prisão de toxicodependentes enquanto o governo ia preparando a maior dose de investimento público improdutivo da história. Foi a direita que em 2005 quis cavalgar um rumor, apostando na homofobia do eleitorado, mas tudo o que conseguiu foi dar uma maioria absoluta ao pior primeiro-ministro de que há memória que alegadamente controlava já a maior rede de corrupção no espaço político português de que há memória. Foi a direita que fez um cavalo de batalha da proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo, passou mais de um ano a discuti-la enquanto que um governo alegadamente corrupto tomava conta de bancos, empresas e órgãos de comunicação social. Foi uma direita que se afirmou defensora dos contribuintes, mas que não hesitou em lançar o maior aumento de impostos de sempre quando, como se veio a provar, ainda havia despesa pública para cortar. É esta direita que hoje compete o BE para ser a muleta de um governo PS, com as mesmas pessoas que levaram o país à falência, tal é a fome de poder e rapar um pouquinho do tacho. Foi uma direita que entregou de bandeja a superioridade moral à esquerda, que perdeu uma geração de jovens com instintos liberais para o Bloco de Esquerda. Quando um jovem com ímpetos liberais tem 18 anos, não paga impostos nem é afectado pela burocracia, exprime o seu desejo de liberdade defendendo as suas liberdades de comportamento. E durante anos viu no Bloco de Esquerda e no PS, os partidos mais iliberais do espectro político português, os defensores das suas liberdades. O espaço não socialista não pode voltar a cometer o mesmo erro. Não pode entregar de bandeja outra geração à esquerda. Tem que saber desta vez escolher as causas certas. E quais são essas causas?

Estamos há 20 anos estagnados. Caminhamos rapidamente para a cauda da Europa. Estar há 20 anos estagnados significa que houve dezenas de milhares de pessoas hoje perto dos 40 anos que entraram no mercado de trabalho, mudaram de emprego, casaram, tiveram filhos quase sem verem uma alteração decente nos seus rendimentos. Pessoas que viram os seus pais a dar um enorme salto na sua qualidade de vida nos 20 anos anteriores e que não têm nenhuma perspectiva de dar um salto equivalente. Pessoas que cresceram politicamente a discutir como dividir o bolo porque já não sabem o que é vê-lo a crescer. Mas nós sabemos pelos exemplos que vêm de fora que a estagnação não é uma fatalidade. Sabemos que com as políticas certas é possível tirar Portugal do marasmo. Temos que saber comunicar aos portugueses

Precisamos de reduzir os impostos e a burocracia. Tornar a administração pública mais transparente e reduzir os cargos de nomeação política. Se o fizermos, tornaremos o país mais apetecível ao investimento estrangeiro, haverá criação de emprego e melhores salários.

Precisamos de descentralizar. De ter uma ideia de descentralização diferente da que têm os socialistas. Uma descentralização que aproxime o poder das pessoas, em vez de o multiplicar. A direita não devia fazer o mesmo de há 20 anos e não apresentar soluções alternativas à visão socialista. Um dia arriscam-se a que a sua base eleitoral que está nas duas regiões mais pobres e que mais sofrem com o centralismo, Norte e Centro, se aperceba que foram abandonadas pelos partidos nos quais votam em massa. Nós, os liberais, não iremos cometer esse erro.

Precisamos de liberdade de escolha, de abrir os serviços públicos à iniciativa privada e de o defender sem medo. Precisamos de uma liberdade de escolha na educação para que o estado não possa mais dividir a qualidade de educação das crianças de acordo com o bairro em que nasceram. Precisamos de liberdade de escolha na saúde para garantir que os mais pobres têm acesso aos melhores cuidados de saúde que o dinheiro dos impostos de todos pode pagar.

Deviam ser estas as causas do espaço não socialista, por muito fácil e populista que seja ter outras. Por muito emotivo que seja basear toda a política na noção de que podemos salvar a civilização ocidental a partir de um pequeno rectângulo da Europa, talvez fosse importante focarmo-nos, em vez disso, em salvar os portugueses dos riscos sociais e económicos de uma estagnação prolongada com o inverno demográfico à porta. Se a direita passar os próximos 20 anos mais preocupada em limitar liberdades individuais do que a garantir a liberdade económica, passará mais 20 anos de crise. E o país também. Nós, os liberais, não o faremos.