Quando o presidente da Iniciativa Liberal se demitiu na sequência de uma polémica ligada à página de Facebook do partido, Carlos Guimarães Pinto recebeu o convite para assumir o projeto. Assumidamente confortável do lado de fora, no espaço do comentário político, decidiu passar para o lado da política-política, o da prática.

A Iniciativa não era novidade para o analista que durante vários anos escreveu sobre liberalismo no ‘Insurgente’, um dos blogues de economia mais lidos do país, e que escreve atualmente no ‘Blasfémias’, além de co-autor do livro “O Economista Insurgente”. Quando o projeto nasceu, ainda antes de ser partido, Guimarães Pinto já tinha falado com membros fundadores e trocado conselhos e impressões sobre a orientação que o partido deveria assumir.

Agora, pela primeira vez oficialmente na política, tem como objetivo “que “liberal” deixe de ser uma palavra suja” e que passe a ser “algo pelo qual as pessoas se sintam atraídas”. Assume-se entusiasmado pelo novo ano, por finalmente poder colocar uma cruz ao lado da palavra “liberal” num boletim de voto. E garante que há mais liberais no país do que se pensa, aliás, diz mesmo que há muitas pessoas que o são e que não sabem.

Carlos Guimarães Pinto é dos dois líderes de partidos liberais que participam na 1ª Convenção Europa e Liberdade promovida pelo MEL – Movimento Europa e Liberdade – que se reúne esta quinta e sexta-feira na Culturgest, em Lisboa.

créditos: Facebook Iniciativa Liberal

Está há quase três meses à frente da Iniciativa Liberal. Como tem sido estar do outro lado, do lado a fazer política?

Tem sido muito interessante. Primeiro porque enquanto analista nós tendemos a querer sempre o ideal, a ter um conjunto de ideias que têm de ser todas implementadas e acreditamos que isso é possível; e quando chegamos ao outro lado apercebemo-nos das restrições que existem na vida partidária. Por outro lado também é estimulante, porque, ao fim de tantos anos a falar de liberalismo, coloco-me nesse desafio de o pôr em prática ou, pelo menos, apresentá-lo de forma estruturada ao eleitorado, que é algo que nunca tinha tido oportunidade de fazer e que nenhum analista tem.

Como é que um analista acabou à frente de um partido?

Eu entrei na política após um convite, já comentava e escrevia sobre política há muitos anos, nomeadamente sobre o liberalismo. Nunca tinha estado na política ativa antes disto. Mas, quando recebi o telefonema em que apresentaram a possibilidade de me candidatar a presidente da Iniciativa Liberal, decidi dar este passo, algo que eu tinha evitado a todo o custo durante os anos anteriores. Apesar de ter tido alguns convites, tinha optado sempre por me manter sempre de fora, acho que era uma posição bastante mais confortável como vendedor de ideias. Desta vez decidi assumir o desafio e aceitei presidir a um partido.

Enquanto analista, como é que assistiu ao nascimento da Iniciativa Liberal? Imagino que tenha acompanhado o processo com especial atenção.

Já tinha falado com alguns membros fundadores ainda antes da Iniciativa ser um partido, tinha dado algumas recomendações, tinha tido algumas discussões sobre a orientação que a associação, e depois o partido, deveria ter. Foi bastante interessante, foi algo que eu gostei de ver. Pela primeira vez apareceu um partido que não se importava de ter “liberal” no nome.

Ter liberal no nome era um problema?

Lembro-me de um congresso do PSD em que Luís Felipe Menezes usou “liberal” como um insulto [referência à famosa crítica à direção do PSD à época: “sulistas, elitistas e liberais!” em 1995 no Coliseu dos Recreios no congresso que veio a eleger Fernando Nogueira]. Ou seja, “liberal” era algo utilizado como um insulto em política, ali logo acima de fascista. E o facto de durante tantos anos termos conseguido falar do liberalismo de forma aberta ao ponto de um partido, novo, colocar “liberal” no nome, para mim, como analista, como alguém que sempre se empenhou na transmissão de ideias, apesar de não ser o meu partido na altura, foi algo que me deixou muito feliz.

Por que é que existe, ou existia, essa conotação tão negativa com o termo liberal?

Faz parte da nossa cultura política. Quase a grande maioria dos partidos que andam pelo Parlamento têm origens ou evoluíram no sentido de serem socialistas, e por isso acabam por ser eles mesmos dominar a retórica política. Foi assim que se criou o espantalho do “liberal” como alguém que não se importa com as pessoas, e é muito fácil, uma vez alimentado esse espantalho, que todos os partidos se deixem cair e comecem também a utilizar o termo como insulto. Acho que foi isso um pouco que aconteceu, nós saímos do período do PREC com um país bastante à esquerda, uns mais socialistas, outros mais comunistas, mesmo aqueles que não eram assumidamente socialistas defendiam que o país devia caminhar na direção do socialismo e quando temos um campo partidário tão desequilibrado é normal que certos termos que não se coadunam com esse mesmo campo acabem por ser utilizados como insulto.

Em pratos limpos, o que é, então, um liberal?

Podia utilizar as minhas palavras, mas melhor do que isso será utilizar as palavras de Fernando Pessoa que deve ser o liberal português mais conhecido que dizia “o liberalismo é a doutrina que mantém que indivíduo tem o direito de pensar o que quiser, exprimir o que pensa como quiser e de pôr em prática o que pensa como quiser, desde que essa expressão ou essa prática não infrinja diretamente a igual liberdade de qualquer outro indivíduo”. É isto. Não há nada a acrescentar.

“Portugal tem mais liberais do que se pensa. Há muitos princípios liberais que são os objetivos das pessoas”

2019 vai ser o ano mais importante da história do partido?

É um ano extraordinário para nós. Temos dezenas de membros que estão neste momento ativos em ações de rua a fazer crowdfunding e é exatamente este o ano pelo qual estávamos todos à espera. Recebo dezenas de mensagens todos os dias com diferentes ideias de coisas que temos de fazer. Nota-se que as pessoas estavam à espera para finalmente ver qual é que é o impacto eleitoral de tudo o que tem vindo a ser feito. As europeias vão ser uma grande festa para nós, independentemente dos resultados. Temos falado muito disto, só o facto de nós, os membros, podermos meter uma cruzinha ao lado do nome “liberal”… para mim, e para todos, vai ser algo extraordinário.

Além do entusiasmo da estreia, quais são as aspirações para este ano? É possível eleger deputados?

Será sempre por isso que iremos lutar, se não não faríamos o partido. Mas o primeiro objetivo de um partido liberal, de um partido de ideias, que não é um partido de marca branca que só quer assumir o poder, é transmitir ideias e garantir que o país está coordenado com o nosso diagnóstico e com as nossas ideias para o futuro. É esse o esforço que temos feito de forma constante nas redes, agora com outdoors: transmitir, martelar sempre a mesma ideia porque um partido ideológico não pode ceder numa coisa, as ideias. E vamos usar todos os meios que estão à nossa disposição em altura de eleições para o fazer. Transmitir ideias é o objetivo principal, independentemente dos votos. Depois, o segundo objetivo é consigamos transmitir essas ideias de forma tão eficaz que as pessoas sintam vontade de votar num partido assim.

Acha que Portugal já está alinhado com o liberalismo para que esse segundo objetivo seja cumprido?

Eu acho que Portugal tem mais liberais do que se pensa. Há muitos princípios liberais que são os objetivos das pessoas. Pensemos, por exemplo, na liberdade de escolha. Há muitas pessoas que gostariam de poder escolher a escola dos seus filhos, o hospital onde vão. Olhe-se para a popularidade da ADSE ou para a popularidade da possibilidade de se escolher a escola. O facto de as pessoas usarem moradas falsas para irem para outra escola, ou seja, o facto de fazerem algo ilegal para poderem escolher a escola onde põem os seus filhos mostra que a liberdade de escolha é um objetivo muito claro, é algo que as pessoas realmente querem ter. A descentralização a mesma coisa, isto é um princípio liberal fulcral e é algo que muitas pessoas defendem e que nenhum socialista realmente defende. O que normalmente é defendido é a deslocalização de organismos públicos, mas a descentralização é um princípio liberal e muitos não o sabem. Muita gente também quer a diminuição da carga fiscal que é outro princípio liberal pelo qual vamos lutar. Ou seja, muitas pessoas são liberais e não o sabem.

Participar nos atos eleitorais que se avizinham à frente de um partido novo é uma vantagem ou uma desvantagem?

Acho que é claramente uma desvantagem. Um partido novo tem de ganhar reconhecimento, o que é algo muito complicado. As pessoas têm de saber que existe um novo partido, que aquilo que vêm nas redes sociais é um partido, especialmente no nosso caso que nem partido temos no nome. As pessoas têm um espaço de atenção muito curto para a política, se calhar ouvem três ou quatro minutos de política por dia e se calhar dedicam-nos aos partidos que já existem, por isso a capacidade de captar atenção para um partido pequeno é também muito pequena. E isso obviamente restringe.

“O MEU OBJETIVO É QUE “LIBERAL” DEIXE DE SER UMA PALAVRA SUJA, QUE PASSE A SER ALGO PELO QUAL AS PESSOAS SE SINTAM ATRAÍDAS”

O paradigma do Parlamento nos últimosanos imagino que também não seja particularmente inspirador…

Nos últimos 40 anos que partidos é que apareceram? Apareceu o BE que, no fundo, era um conjunto de partidos que já existiam desde o 25 de Abril e depois, excluindo o partido do Ramalho Eanes que foi um caso à parte, apareceu para mim um caso de sucesso: o PAN. O Pessoas, Animais e Natureza apareceu como um partido novo e nas redes sociais, apenas. E se pensarmos que o PAN, que é o partido com mais seguidores nas redes sociais, fora do mainstream, só conseguiu eleger um deputado, imagine-se o trabalho que é preciso fazer fora dos media mainstream para o conseguir. Foi isso que o PAN fez, um trabalho excepcional. Tornou-se no partido mais popular e com isso, após muitos anos, elegeram um deputado. Portanto, a nossa tarefa não é fácil, mas também por isso, se fosse fácil, não era para nós.

Nestes dois dias acontece na Culturgest uma conferência, promovida pelo MEL, que está a ser apelidada de reunião da direita. O Carlos vai participar no segundo dia. Por que é que faz sentido a direita juntar-se neste momento?

Tenho alguns problemas em chamar àquilo direita. Eu acho que em Portugal se chama direita a tudo o que não é o PS. Eventualmente está lá direita, o CDS é claramente um partido de direita, mas o PSD não é um partido assumidamente de direita e a Iniciativa Liberal é um partido liberal. Eu acho que a direita é um nome fácil que se dá a tudo o que não é a Geringonça. Eu acho que é preciso que os partidos que não são a Geringonça apresentem as suas propostas de política alternativas. Uma conferência pode ser uma forma de ajudar a perceber onde estas propostas alternativas se encontram e em que é que se baseiam. E basicamente para o público conhecer que propostas são estas. Ou seja, que alternativas é que existem à atual governação. Eu acho que isso é importante.

É a Geringonça alternativa?

Eu acho que, por exemplo, o PSD estaria mais próximo de criar uma Geringonça com o PS do que com qualquer outros partidos alternativos. Acho que não é isso que se constrói ali, é mais tentar perceber que alternativas existem para que os eleitores que não estão satisfeitos com a atual solução saibam exatamente o que esperar das outras soluções que estão aí.

Qual é que é o seu objetivo enquanto dirigente partidário?

Quando fui convidado, disse que o meu objetivo era que o liberalismo se tornasse mais popular no país. O meu objetivo na Iniciativa Liberal é que “liberal” deixe de ser uma palavra suja, que seja algo pelo qual as pessoas se sintam atraídas. Eu até disse a certa altura que se a Iniciativa Liberal se tornasse redundante porque todos os outros partidos adotavam o liberalismo, era a maior marca de sucesso que nós teríamos porque o nosso objetivo deve ser acima de tudo a transmissão de ideias, contribuir o mais possível para que no final do meu mandato digam que hoje, mais do que há dois anos, as pessoas entendam o que é o liberalismo e haja muito mais pessoas a dizerem-se liberais do que antes, votem ou não na Iniciativa.

Tomás Albino Gomes, Madremedia, Sapo24, 10 de Janeiro de 2019