Construir Já
As populações e empresas afetadas pelas sucessivas depressões atmosféricas que atingiram Portugal desde 28 de janeiro de 2026 não podem esperar por mais um plano sem medidas concretas. Precisam de respostas imediatas, claras e eficazes, capazes de remover entraves, acelerar a recuperação e devolver normalidade económica e social às zonas afetadas.
É essencial partir das medidas já aplicadas, reconhecer as suas insuficiências e atuar já. Um dos exemplos mais evidentes é o apoio às empresas. Hoje, muitas empresas são confrontadas com apenas duas alternativas de apoio: lay-off ou endividamento. Nenhuma destas soluções, isoladamente, permite uma recuperação sustentável de quem perdeu equipamentos, instalações ou capacidade produtiva.
Neste contexto, a Iniciativa Liberal apresenta um conjunto de medidas focadas no curto e médio prazo, assentes na agilidade do Estado, na confiança nos cidadãos e empresas e na transparência da execução, para garantir uma resposta eficaz à calamidade.
1 – APOIOS DIRETOS E SIMPLIFICADOS ÀS EMPRESAS
Atualmente, as empresas afetadas dispõem essencialmente de duas respostas: lay-off e gestão de créditos fiscais ou financeiros. Num contexto de quebra abrupta da atividade, o recurso ao crédito pode agravar a fragilidade económica das empresas.
PROPOSTA:
- Alargar o regime de apoio simples atualmente existente para proprietários de habitação própria e permanente às empresas afetadas.
- Permitir a utilização destes apoios para reparações urgentes e reposição de equipamentos essenciais danificados.
- Utilizar instrumentos já existentes e testados no terreno, assegurando rapidez na implementação.
- Priorizar pequenos negócios, cujo impacto orçamental é reduzido para o Estado, mas decisivo para a sobrevivência económica local.
2 – ALARGAMENTO DO APOIO À RECUPERAÇÃO DE HABITAÇÃO PRÓPRIA E PERMANENTE PARA DAR RESPOSTA À RECONSTRUÇÃO TOTAL DE HABITAÇÕES
O apoio à recuperação de habitação própria e permanente, sendo uma medida essencial para dar resposta a inúmeras situações de reparações pontuais, não é, manifestamente, suficiente para dar resposta a situações mais gravosas em que as casas foram simplesmente arrastadas ou destruídas.
PROPOSTA:
- Aproveitar a infraestrutura e mecanismo implementado com o apoio à recuperação de habitação própria e permanente, para identificar situações particularmente urgentes e graves de recuperação mais aprofundada da habitação.
- Aumentar a dotação prevista para situações de emergência social, nomeadamente carência financeira e incapacidade de repor as condições de segurança e habitabilidade.
- Priorizar o acesso à habitação pública quando, verificando-se que os custos de reposição e a existência de uma fragilidade financeira particularmente gravosa, seja mais vantajoso face ao financiamento da reposição ou tal operação esteja impossibilitada por motivos de segurança.
3 – INCENTIVOS FISCAIS AO INVESTIMENTO E À RECONSTRUÇÃO NAS ZONAS AFETADAS
A recuperação económica exige a mobilização de capital privado. No entanto, o risco associado a empresas cuja atividade foi interrompida constitui um forte desincentivo ao investimento e importa, por isso, reforçar os incentivos que permitam o direcionamento de capital às zonas afetadas.
PROPOSTA:
- Criar um programa temporário de dedução fiscal em sede de IRS e IRC para investimentos realizados em empresas localizadas nas zonas afetadas.
- Abranger:
- Aumentos de capital em empresas sediadas ou fundadas nas áreas afetadas.
- Investimentos de empresas-mãe destinados à reposição de infraestruturas e negócios localizados nessas zonas, financiados por aumentos de capital.
- Limitar o programa a um período de três anos.
- Definir requisitos mínimos de manutenção temporal do capital e prazos de concretização dos investimentos.
- Utilizar um modelo semelhante ao SIFIDE II, garantindo simplicidade e previsibilidade.
4 – COMPENSAÇÃO ÀS EMPRESAS PELAS FALTAS JUSTIFICADAS DE TRABALHADORES
Muitas empresas viram-se privadas da sua força de trabalho devido a faltas justificadas dos trabalhadores afetados pela calamidade, sem acesso a mecanismos de compensação existentes noutros contextos.
PROPOSTA:
- Criar um mecanismo de compensação para empresas cujos trabalhadores tenham faltado justificadamente por motivos de força maior associados à calamidade.
- Assegurar que o direito do trabalhador à proteção da sua segurança e à reconstrução urgente da sua habitação não penaliza de forma desproporcionada as empresas.
- Compensar as entidades empregadoras pela manutenção do rendimento dos trabalhadores durante este período excecional.
5 – REEMBOLSO FISCAL DAS DESPESAS COM COMBUSTÍVEIS PARA GERADORES
Desde 28 de janeiro de 2026, várias empresas têm recorrido diariamente a geradores para manter a atividade, proteger trabalhadores e evitar prejuízos ainda maiores. Quando os impostos podem representar entre 55% a 65% do preço final, importa aliviar a carga fiscal associada ao uso de geradores.
PROPOSTA:
- Retirar o peso da carga fiscal sobre os combustíveis utilizados exclusivamente para alimentar geradores em contexto de calamidade.
- Reembolsar os impostos pagos sobre estes combustíveis durante o período excecional.
- Reduzir a necessidade de outros apoios diretos, reforçando a autonomia financeira das empresas.
6 – LICENCIAMENTOS MAIS RÁPIDOS PARA A RECONSTRUÇÃO
A destruição de habitações e infraestruturas obriga muitas famílias e empresas a recomeçar do zero. A burocracia não pode agravar esse sofrimento.
PROPOSTA:
- Simplificar e agilizar os processos de licenciamento urbanístico para reconstrução do edificado destruído.
- Garantir procedimentos expeditos sempre que não existam alterações estruturais relevantes ou riscos acrescidos.
- Reavaliar a legislação aplicável à reconstrução em contexto de calamidade.
- Priorizar estes processos, reduzindo para um terço os prazos atualmente previstos em todas as fases do licenciamento.
- Assegurar que a simplificação não compromete a segurança, a resiliência e a adaptação a novos riscos climáticos.
7 – TRANSPARÊNCIA, MÉTRICAS DE ACOMPANHAMENTO E AUDITORIA
A excecionalidade das medidas exige confiança, rapidez e responsabilização. É fundamental garantir transparência total e fiscalização eficaz do uso de recursos públicos.
PROPOSTA:
- Criar métricas objetivas de acompanhamento da execução das medidas.
- Desenvolver um Portal da Transparência dedicado à resposta à calamidade, com informação clara sobre:
- Número de pedidos submetidos e aprovados;
- Montantes solicitados e atribuídos;
- Comparação com os valores orçamentados e disponíveis.
- Assegurar auditorias regulares à execução e aos controlos internos de execução por parte da Inspeção-Geral de Finanças e do Tribunal de Contas.
- Avaliar continuamente a eficácia das medidas, identificando falhas e prevenindo abusos.
8 – ORÇAMENTO RETIFICATIVO PARA A RESPOSTA À CALAMIDADE
Sem um Orçamento Retificativo, o debate político e as soluções disponíveis ficam inevitavelmente limitadas. A Iniciativa Liberal defende que a resposta à calamidade deve ser enquadrada de forma clara, transparente e escrutinável no Orçamento do Estado.
PROPOSTA:
- Iniciar um processo de revisão Orçamental para dar resposta às situações urgentes da situação de calamidade.
- Permitir que os partidos apresentem propostas com impacto financeiro ainda em 2026.
- Evitar a dispersão de decisões por mecanismos excepcionais pouco claros e de difícil escrutínio público.
- Enquadrar de forma transparente o impacto financeiro da recuperação, incluindo nos orçamentos municipais, sem transferir para o plano local responsabilidades que devem ser assumidas ao nível nacional.
Conquistar o Futuro
Esta é a fase da transformação e da ambição. Depois da estabilização e da recuperação imediata, Portugal tem de fazer escolhas que o preparem para os próximos anos. Isso implica modernizar o Estado, reforçar a resiliência nacional, investir com critério, aumentar a competitividade da economia e criar condições para mais crescimento, melhores salários e serviços públicos mais eficazes. O objetivo não é regressar ao ponto de partida. O objetivo é avançar para um país mais forte, mais preparado e mais capaz.
Conquistar o futuro significa usar este momento para concretizar reformas que há demasiado tempo são adiadas. Significa ter um Estado que decide mais depressa e executa melhor, uma economia com menos entraves e mais liberdade para crescer. São necessárias transformações profundas na gestão e ordenamento do território, na articulação entre as diferentes instituições que actuam na esfera da proteção civil, na lei de bases da proteção civil e na definição de uma estratégia nacional de prevenção, preparação e resposta que coloque a proteção das pessoas, a coordenação operacional e a capacidade de execução do Estado no centro da ação pública.
1 – GESTÃO TERRITORIAL E ORDENAMENTO DO TERRITÓRIO
Portugal precisa de uma nova escala de ordenamento do território. Os principais riscos e desafios territoriais: cheias, incêndios, desertificação, fragmentação fundiária e perda de valor económico não respeitam fronteiras administrativas e não podem continuar a ser tratados de forma fragmentada, concelho a concelho.
A realidade territorial é contínua: bacias hidrográficas, manchas florestais, mobilidade, urbanização e cadeias económicas exigem respostas integradas. Por isso, torna-se necessário reforçar a coordenação intermunicipal, garantir coerência entre níveis de decisão e criar incentivos concretos à execução.
Este plano de ação propõe uma mudança estrutural na forma como o território é planeado e gerido em Portugal
Nova Articulação para os Instrumentos de Gestão Territorial
PROPOSTAS:
- Mudar a escala do ordenamento do território, passando de uma lógica excessivamente municipal para uma lógica intermunicipal e articulada.
- Tornar o planeamento territorial mais coerente, eficaz e executável, com alinhamento entre níveis nacional, regional, intermunicipal e municipal.
- Adaptar os instrumentos de gestão territorial aos riscos atuais, evitando decisões assentes em diagnósticos desatualizados.
Planeamento Intermunicipal Obrigatório
PROPOSTAS:
- Tornar obrigatória a existência de um instrumento comum de ordenamento territorial para Comunidades Intermunicipais (CIM) e Áreas Metropolitanas (AM)
- Passar da atual lógica facultativa (prevista na lei) para uma obrigatoriedade de coordenação territorial intermunicipal.
Modelo de Execução e Incentivos Financeiros
PROPOSTAS:
- Associar a obrigatoriedade dos instrumentos intermunicipais a um modelo claro de execução.
- Criar um sistema de incentivos financeiros por desempenho para CIM e AM.
- Prever majorações de financiamento para as entidades que:
- Cumpram os prazos definidos
- Aprovaram os instrumentos de ordenamento intermunicipal
- Demonstrem capacidade de execução e articulação territorial
Coordenação Permanente entre Escalas de Planeamento
PROPOSTAS:
- Estabelecer uma lógica de coordenação permanente entre os vários níveis de organização territorial: Nacional, Regional, Intermunicipal e Municipal
- Criar mecanismos formais para evitar sobreposição de competências, eliminar vazios de atuação e prevenir decisões contraditórias
Revisão Prioritária dos PROT Desatualizados
PROPOSTAS:
- Lançar uma revisão prioritária dos PROT mais desatualizados e definir um processo com:
- Critérios objetivos de priorização
- Calendário vinculativo de revisão
- Identificação formal dos PROT em maior atraso
- Prazos concretos de atualização
- Mecanismos de acompanhamento público
2 – ARTICULAÇÃO EFICAZ ENTRE PROTEÇÃO CIVIL E FORÇAS ARMADAS EM CRISES
A coordenação entre as Forças Armadas e a proteção civil é uma questão crucial para a nossa capacidade de resposta a crises complexas e imprevistas. Portugal possui uma estrutura legal robusta que permite a colaboração entre essas entidades, conforme exposto na Lei de Bases da Proteção Civil (LBPC), no Sistema Integrado de Operações de Proteção e Socorro (SIOPS), e na Lei Orgânica das Forças Armadas (LOBOFA), entre outras normativas. Contudo, apesar de um quadro jurídico sólido, existem lacunas operacionais e estruturais que podem comprometer a eficácia dessa colaboração em momentos de emergência.
É neste contexto que apresentamos um modelo de coordenação cívico-militar que consolide e operacionalize a articulação entre a proteção civil e as Forças Armadas, com base nos princípios constitucionais e legais que orientam o nosso sistema de defesa e segurança. O objetivo não é reinventar o sistema, mas aperfeiçoá-lo, tornando-o mais claro, eficiente e transparente.
IDENTIFICAÇÃO DAS LACUNAS
Densificação Procedimental e Resposta Rápida
Apesar de existir enquadramento legal para o envolvimento das Forças Armadas na Proteção Civil, o regime atual apresenta fragilidades operacionais relevantes. A lei define princípios gerais de solicitação e coordenação, mas não estabelece prazos máximos de decisão, procedimentos padronizados, “missões-tipo” pré-autorizadas ou indicadores de desempenho, o que pode gerar atrasos em crises de evolução rápida.
Persistem também lacunas na interface tática entre comando civil e comando militar, na interoperabilidade tecnológica entre sistemas e na articulação estruturada entre proteção civil, segurança interna e defesa nacional.
PROPOSTAS:
- Definir procedimentos operacionais padronizados para pedidos de apoio militar à proteção civil.
- Estabelecer prazos máximos vinculativos para cada fase do ciclo de decisão:
- Pedido;
- Validação;
- Autorização;
- Ativação.
- Criar critérios operacionais claros para:
- Subsidiariedade;
- Escalonamento de meios;
- Encerramento da intervenção.
- Garantir que o silêncio decisório não bloqueia a resposta quando estiverem em causa pessoas e bens.
COORDENAÇÃO OPERACIONAL ENTRE PROTEÇÃO CIVIL E FORÇAS ARMADAS
Catálogo Nacional de Missões-Tipo Pré-Autorizadas
O modelo de coordenação assenta em quatro princípios fundamentais:
- primazia do comando civil na proteção de pessoas e bens;
- respeito pela missão constitucional das Forças Armadas;
- automatismo operacional em situações previsíveis e recorrentes;
- simplicidade institucional, sem criação de novas estruturas permanentes.
A coordenação deve ocorrer dentro dos sistemas existentes, reforçando a sua interoperabilidade e não através da sobreposição de novos órgãos ou instâncias.
PROPOSTAS:
- Instituir um Catálogo Nacional de Missões-Tipo de Apoio Militar à Proteção Civil, por despacho conjunto das áreas da Administração Interna e Defesa.
- Definir, para cenários recorrentes (ex.: incêndios rurais, cheias, evacuações, cortes de estrada, transporte urgente de doentes, apoio logístico):
- Natureza da missão;
- Meios militares elegíveis;
- Autoridade civil competente para ativação;
- Limites operacionais e temporais.
- Determinar que, quando o SIOPS atinge níveis de alerta previamente definidos, estas missões ficam automaticamente pré-autorizadas.
Correspondência Automática entre Alerta Civil e Prontidão Militar
São estabelecidos prazos máximos vinculativos para cada ciclo de decisão, garantindo que a resposta do Estado não fica dependente de indefinições administrativas. Nas missões-tipo previamente autorizadas, a activação dos meios é imediata, dentro dos parâmetros já definidos. Nas situações não previstas no catálogo, a decisão deve ser tomada com carácter urgente, dentro de um prazo legalmente fixado, assegurando rapidez, responsabilidade e previsibilidade na mobilização de recursos.
PROPOSTAS:
- Criar uma matriz formal de correspondência entre:
- níveis de alerta do SIOPS;
- estados de prontidão das Forças Armadas.
- Determinar que a subida do alerta civil aciona automaticamente:
- reforço de prontidão militar;
- pré-posicionamento de meios adequados ao risco.
- Adaptar a prontidão ao tipo de crise: incêndio, cheia, catástrofe e ameaça híbrida.
Comando Claro, Coordenação Eficaz e Limites Bem Definidos
São estabelecidos procedimentos claros que impedem a substituição de funções policiais pelas Forças Armadas e asseguram o respeito pelos princípios da necessidade, proporcionalidade e legalidade.
PROPOSTAS:
- Formalizar a separação inequívoca de funções:
- Comando estratégico da operação: civil
- Comando tático dos meios militares: militar
- Coordenação operacional: posto de comando da proteção civil
- Criar procedimentos obrigatórios de interface tática entre:
- COS
- comandante do destacamento militar
- Reforçar salvaguardas para:
- Impedir substituição de funções policiais pelas Forças Armadas;
- Assegurar necessidade, proporcionalidade e legalidade.
Interoperabilidade, Dados e Accountability
O sistema de accountability atual é fragmentado. Embora existam mecanismos de avaliação operacional e auditoria, não há um registo único obrigatório para cada ativação militar, nem indicadores públicos regulares que permitam monitorizar a eficiência e o cumprimento dos processos de coordenação.
PROPOSTAS:
- Reforçar a interoperabilidade tecnológica entre:
- proteção civil;
- forças de segurança;
- Forças Armadas.
- Definir protocolos obrigatórios de:
- comunicação;
- partilha de dados;
- testes periódicos de sistemas.
- Criar um registo único obrigatório para cada ativação militar em contexto de proteção civil.
- Estabelecer um quadro de indicadores públicos regulares sobre:
- tempos de decisão;
- tempos de mobilização
- tipo de missão;
- resultados operacionais;
- cumprimento de procedimentos.
3 – REVISÃO DA LEI DE BASES DA PROTEÇÃO CIVIL
A revisão da Lei de Bases da Proteção Civil tornou-se uma necessidade inadiável à luz das crises que Portugal enfrentou nos últimos anos. Dos incêndios de 2017 em Pedrógão Grande às cheias que afetaram a região de Lisboa em 2022, passando pela pandemia de COVID-19 e por fenómenos extremos de seca prolongada, o país foi confrontado com situações que expuseram fragilidades estruturais do sistema.
Estas crises revelaram que o enquadramento legal atual está excessivamente centrado na resposta e insuficientemente orientado para a prevenção, que a definição de responsabilidades permanece difusa e que os mecanismos de avaliação e responsabilização continuam frágeis.
Num Estado que deve ser forte nas suas funções essenciais, proteger eficazmente pessoas e bens não pode ser uma ambição retórica: tem de ser uma prioridade estratégica sustentada por um quadro legal claro, exigente e moderno.
A dimensão da coordenação e da articulação institucional é, provavelmente, o ponto mais crítico da futura revisão da Lei de Bases da Proteção Civil. As crises dos últimos anos demonstraram que não basta dispor de meios ou boa vontade operacional. É determinante saber quem decide, quando decide e com que autoridade decide. Sempre que a cadeia de comando é ambígua ou concorrencial, perde-se tempo e, em contexto de emergência, o tempo mede-se em vidas.
PROPOSTAS:
- Clareza na cadeia de comando
- A lei deve definir, sem margem para dúvida, quem decide, quando decide e com que autoridade.
- É essencial criar critérios objetivos para o escalonamento de resposta entre níveis municipal, distrital e nacional, com gatilhos automáticos (dimensão territorial, meios mobilizados, vítimas, impacto em infraestruturas críticas, entre outros).
- Separação entre direção política e comando operacional
- A responsabilidade política é indispensável, mas a condução operacional tem de ser técnica, profissional e protegida de interferências conjunturais.
- A reforma deve clarificar esta fronteira:
- A autoridade política define prioridades e garante meios;
- O comando operacional decide a afetação concreta de recursos no terreno.
- Coordenação intermunicipal e redução de assimetrias
- Os municípios são a primeira linha da proteção civil, mas não têm todos a mesma capacidade.
- A nova lei deve prever:
- mecanismos de cooperação intermunicipal obrigatória;
- partilha de meios técnicos e humanos;
- modelos de apoio que evitem desigualdades na proteção dos cidadãos consoante o município onde vivem.
- Integração efetiva de bombeiros e infraestruturas críticas
A articulação com os corpos de bombeiros e com operadores de setores críticos (energia, comunicações, água, saúde, transportes) tem de ser mais robusta e mais testada. A lei deve impor:- enquadramento operacional claro;
- planos de contingência articulados;
- exercícios conjuntos regulares;
- avaliação independente da preparação do sistema.
- Resposta aos riscos do século XXI
A proteção civil já não pode estar pensada apenas para incêndios e cheias. A lei deve incorporar de forma expressa riscos emergentes, como:- Ciberataques a infraestruturas críticas;
- Falhas energéticas sistémicas;
- Pandemias;
- Fenómenos climáticos extremos;
- Campanhas de desinformação em contexto de crise.
Rever a Lei de Bases da Proteção Civil é uma decisão estratégica sobre o tipo de Estado que queremos. Um Estado que falha na proteção básica fragiliza a confiança dos cidadãos e compromete a própria liberdade. Um Estado que previne, coordena com clareza, avalia com rigor e assume responsabilidades cria segurança jurídica, previsibilidade e confiança institucional. Num país cada vez mais exposto a riscos complexos é uma condição essencial para proteger vidas, património e a própria liberdade dos portugueses.
4 – UM ESTADO MAIS PREPARADO PARA RISCOS SISTÉMICOS
Portugal precisa de reforçar a sua capacidade de antecipar, coordenar e responder a riscos complexos. As crises recentes mostraram que os grandes impactos no país já não surgem de forma isolada: cruzam energia, comunicações, água, saúde, segurança digital e cadeias de abastecimento. A resposta do Estado tem de estar preparada para esta nova realidade.
Taxonomia Nacional de Riscos Sistémicos
É essencial criar uma linguagem comum no Estado para identificar e avaliar riscos.
Necessitamos de consolidar um Registo Nacional de Riscos como taxonomia única de riscos sistémicos, incluindo áreas como o clima, sismo, energia, telecomunicações, água, saúde, cibersegurança, cadeias de abastecimento e desinformação/ameaças híbridas, bem como tecnologias emergentes, como na inteligência artificial e na biotecnologia, que podem representar novas ameaças.
PROPOSTAS:
- Avaliação padronizada de probabilidade e impacto;
- Mapeamento de interdependências entre setores;
- Base comum para medir exposição, risco e mitigação.
Reforçar a PlanAPP como Hub Nacional de Foresight
A capacidade de governação não depende apenas de reagir melhor. Depende de antecipar melhor. A PlanAPP deve ser reforçada como hub nacional de foresight, com missão clara de identificar riscos emergentes e apoiar decisões estratégicas
PROPOSTAS:
- Monitorização de tendências de forma sistematizada;
- Produção de cenários para testar políticas públicas;
- Pontos focais em todos os ministérios;
- Integração no ciclo normal de governação.
Governação Energética com Mais Transparência e Resiliência
O setor energético representa um dos conjuntos mais importantes de infraestruturas críticas do país. Quando falha, o impacto propaga-se a todo o sistema. Por isso, a sua governação tem de ser mais transparente, menos concentrada e mais orientada para a resiliência
PROPOSTAS:
- Separar com clareza funções de planeamento, operação e investimento;
- Exigir indicadores públicos de qualidade e continuidade de serviço;
- Reavaliar periodicamente concessões à luz das necessidades reais do sistema.
Profissionalização e recrutamento por mérito nos cargos de direção e gestão intermédia da Proteção Civil
A eficácia do sistema de proteção civil depende, em larga medida, da qualidade técnica, da experiência operacional e da independência dos seus dirigentes. As crises recentes demonstraram que decisões tardias, fragilidades na coordenação e falhas na execução não resultam apenas da falta de meios, mas também de modelos de nomeação excessivamente dependentes de critérios políticos ou discricionários.
Num domínio onde o tempo se mede em vidas humanas, a liderança não pode ser confundida com confiança política. Tem de assentar em mérito, competência comprovada e experiência relevante.
Por isso, a reforma da Lei de Bases da Proteção Civil deve consagrar um modelo claro de recrutamento concursal e transparente para os cargos de direção e gestão intermédia, garantindo profissionalização, estabilidade e autonomia técnica.
PROPOSTAS:
- Estabelecer a obrigatoriedade de recrutamento por concurso público para os cargos de direção superior e intermédia no sistema nacional de proteção civil, incluindo estruturas nacionais, regionais e intermunicipais.
- Definir critérios objetivos de seleção, centrados em:
- Formação técnica relevante;
- Experiência comprovada em proteção civil, gestão de emergências, segurança ou áreas afins;
- Competências de liderança operacional e coordenação interinstitucional;
- Avaliação de desempenho e resultados em funções anteriores.
- Assegurar a separação entre nomeação política e comando técnico, limitando a livre nomeação política aos cargos estritamente governativos, e protegendo os cargos operacionais e de gestão intermédia de interferências conjunturais.
- Prever mandatos estáveis, com avaliação periódica de desempenho, baseados em indicadores objetivos de execução, prontidão operacional e capacidade de coordenação, permitindo renovação ou cessação fundamentada.
- Reforçar o papel de entidades independentes na validação dos concursos, garantindo transparência, imparcialidade e confiança pública no processo de seleção.
- Promover a valorização da carreira técnica na proteção civil, criando incentivos à especialização, à formação contínua e à retenção de quadros qualificados.
Reguladores Fortes para um País Mais Preparado
Quando o risco é maior, a exigência regulatória também tem de aumentar. Isso exige reguladores independentes, competentes e escolhidos com critérios claros
PROPOSTAS:
- Abrir nomeações para reguladores a concursos públicos, preferencialmente internacionais;
- Reforçar a independência da CReSAP;
- Atribuir poder vinculativo à avaliação de mérito e competência.
5 – PREPARAR E PREVENIR
A preparação para catástrofes não deve ser vista apenas como uma responsabilidade das autoridades ou dos agentes operacionais. Uma sociedade verdadeiramente resiliente constrói-se através do conhecimento, da antecipação e da capacitação dos seus cidadãos. Por isso, é fundamental investir em programas estruturados de educação para o risco, quer no sistema de ensino, quer ao nível comunitário.
Educação para a segurança nas escolas
A escola é o ponto de partida natural para criar uma cultura de prevenção. O objetivo não é criar mais uma disciplina, mas integrar de forma prática e transversal conteúdos essenciais de segurança e proteção civil nas áreas já existentes.
PROPOSTAS:
- Comportamentos de autoproteção em caso de incêndio, sismo, cheia ou vaga de calor;
- Noções básicas de primeiros socorros;
- Leitura de avisos meteorológicos;
- Utilização de sistemas de alerta.
Programas comunitários para população sénior
A preparação para o risco também exige uma resposta de proximidade, especialmente junto da população sénior. Muitas pessoas idosas vivem sozinhas, têm mobilidade reduzida ou menor acesso à informação digital, o que aumenta a sua vulnerabilidade em cenários de emergência.
PROPOSTAS:
- As juntas de freguesia devem ter um papel central, através de programas locais de informação e capacitação, adaptados às necessidades concretas desta população.
- Criar programas de orientação prática em caso de crise,mecanismos de apoio comunitário e redes de vizinhança, que são muitas vezes determinantes nas primeiras horas de uma emergência.
Uma comunidade informada reage com menos pânico, coopera melhor com as autoridades e reduz a pressão imediata sobre os meios de socorro. A preparação não elimina o risco, mas diminui significativamente as suas consequências. E, num contexto de eventos extremos cada vez mais frequentes, a educação para a segurança deve ser entendida como uma política pública permanente e não como uma reação pontual a cada nova crise.
Conclusão
Levantar Portugal é uma proposta de resposta exigente e transformadora a uma crise que expôs fragilidades antigas, mas que também abriu uma oportunidade para corrigir erros, reformar o Estado e preparar o país para riscos cada vez mais complexos. Não basta reconstruir o que foi perdido. É preciso reconstruir melhor, com mais rapidez, mais transparência e mais capacidade de execução.
A primeira fase, Construir Já, responde à urgência: apoiar famílias e empresas, remover bloqueios burocráticos, garantir liquidez, acelerar a recuperação e devolver normalidade às comunidades afetadas. A segunda fase, Conquistar o Futuro, assume uma ambição maior: usar este momento para concretizar reformas estruturais que tornem Portugal mais resiliente, mais competitivo e melhor preparado para enfrentar crises futuras.
Este plano assenta numa ideia simples: um Estado eficaz não é o que promete mais, é o que decide a tempo, coordena com clareza, executa com rigor e presta contas. É essa a diferença entre um país que reage sempre tarde e um país que se antecipa, protege e avança.
Portugal precisa de respostas imediatas, mas também de visão estratégica. Precisa de confiança nas pessoas, nas empresas e nas instituições locais, com um Estado que esteja à altura das suas funções essenciais. O Levantar Portugal propõe exatamente isso: uma resposta à emergência e um compromisso com o futuro. Porque recuperar é urgente mas Conquistar o Futuro é fundamental.




