“Olhe que este não é o primeiro dia de campanha”, começam por dizer. Embora só esta segunda-feira comece oficialmente a corrida, a Iniciativa Liberal vai para a rua há mais tempo e tem apostado na propaganda nas redes sociais. Um dia chamaram-lhes “rebeldes responsáveis”. Eles gostaram

Também querem um gelado?

Encontramos Ricardo Arroja numa das entradas da Fundação Calouste Gulbenkian. Está calor, muito calor, no centro de Lisboa. O cabeça de lista pela Iniciativa Liberal acabou de chegar do Porto, veio de comboio e ainda não parou. Depois de estar com Expresso, foi ao hotel também para ver a estreia do tempo de antena do partido. “Oh, estou curioso”. E segue depois para o debate na RTP com os restantes candidatos que lutam por eleger o primeiro eurodeputado.

Sabem que o debate desta noite, transmitido pela RTP, vai ser diferente do último em que participaram. “Há muita gente, são 12 candidatos”, diz Arroja. Não estão a contar com mais do que uma ou duas intervenções, qualquer coisa como oito minutos por cada um deles.

“Agora vamos só rever a matéria”, explica o candidato enquanto se senta na primeira fila do anfiteatro do jardim da Gulbenkian. “O dia foi sobretudo passado a ler, porque na realidade este não é o primeiro dia de campanha, já estamos em campanha há algum tempo. Aproveitei para reler tudo e me preparar”. Por ser economista de profissão, os assuntos económicos e financeiros são os que melhor domina, mas a Europa não é apenas números, alerta. “Os temas legais e institucionais foram os mais complicados e na União essa pasta é muito pesada.”

A Europa é “uma grande oportunidade”, que vive de muitas barreiras e que hoje enfrenta a emergência dos populismos e extremismos devido a erros próprios . “Estas ideologias surgiram sobretudo devido à questão migratória e à falta de oportunidade económicas. E a União Europeia tem dois grandes desafios: resolver os problemas relacionados com o cumprimento dos Direitos Humanos e voltar a ter um espaço europeu onde haja uma convergência de riqueza.”

Então a conversa segue caminhos e palavras mais técnicos, o “economês”. “Temos feito um grande trabalho em equipa para eu não usar todas estas palavras complicadas que só quem trabalha em economia conhece”, diz, quando se apercebe que está entrar em detalhes. No último debate, a sua equipa fez tabelas com tempos e analisou o discurso de Ricardo Arroja. O objetivo é descomplicar para que todos compreendam.
Ricardo Arroja é economista e, até ser cabeça de lista pelo Iniciativa Liberal, era presença assídua na RTP, com comentários económicos e em debates.

UM LUGAR ESPECIAL

O jardim da fundação quase se tornou uma sede de campanha em Lisboa. “Já é a terceira vez que vimos para aqui”, diz Arroja. E conta-nos a história: “A primeira entrevista que me pediram quando anunciaram o meu nome como cabeça de lista teve de ser gravada em Lisboa e lembrei-me disto. E nas vezes seguidas, e sempre que me pedem um lugar em Lisboa, acabamos sempre aqui.”

“E porque escolheu este lugar da primeira vez?”. A resposta mais política: “Pelo simbolismo, porque me parece um bom exemplo da parceria entre a Sociedade Civil e o Estado”. Depois, a mais pessoal: “O meu pai foi bolseiro da Gulbenkian desde os tempos da escola comercial até ao doutoramento.” E foi por isso que, em 1978, quando Ricardo Arroja tinha apenas uns meses de vida, a família rumou ao Canadá, com um bolsa de investigação. “Gosto de pensar que a fundação contribuiu de alguma forma, ainda que indiretamente, para a minha qualidade de vida”. O economista haveria ainda de começar o ensino primário no estrangeiro e só viria a regressar em 1986, quando se fixou no Porto.

Enquanto nos encaminhamos para o anfiteatro, Ricardo Arroja come o gelado. Não é interpelado pelas pessoas que passam, não o reconhecem. Aliás, tudo no candidato parece pouco de candidato. Há uma descontração que não se encontra em plena campanha eleitoral junto daqueles que são considerados grandes partidos.

“Estamos muito fortes nas redes sociais”, diz o cabeça de lista. E, talvez, foi esta nova forma de comunicar com o eleitorado que permitiu o surgimento de tantos novos partidos, acreditam. Mas não é só isso: “há uma grande insatisfação das pessoas”.

É no telemóvel que mostram ao Expresso o tempo de antena que vai estrear esta segunda-feira. Fazem-nos prometer que não contamos nada até às 19h. Mas à hora que este texto é publicado e a que o leitor está a ler já passam das 19h e pudemos dizer-lhe que é bem diferente daquilo que os eleitores estão habituados. Há humor, cor e uma música popular e fácil de trautear.

“Está a ver? Isto somos nós a sermos irreverentes mas a falar de coisas sérias”, diz.

NEM ESQUERDA NEM DIREITA

“Essa pergunta aparece sempre”, responde a pequena comitiva de forma bem disposta. E a pergunta de sempre é: “Em qual espetro político é que se inserem”. E a resposta, a que o economista diz já saber de cor, é: “Na típica linha horizontal com esquerda e direita, o Liberal é uma linha vertical ao centro e perpendicular à horizontal, em que as pessoas estão no topo”. Mas não se identificam com nenhum dos lados? “Uns dizem que somos de direita em matérias económicas, outros dizem que somos de esquerda nas matérias sociais”, apressa-se a atirar Rodrigo Saraiva, um dos responsáveis pela comunicação do partido.

Se por um lado defendem a privatização de empresas públicas e o reforço da propriedade privada e da iniciativa privada, por outro, querem a redução da intervenção do Estado e acreditam que “Todo o indivíduo tem direito a dirigir a sua própria vida” e isso inclui serem a favor de matérias como a legalização da cannabis ou da eutanásia.

Para Arroja, os portugueses estão cansados da dicotomia esquerda-direita, procuram novas respostas. “Queremos descentralizar, queremos afastar-nos da ideia política de que o Estado é uma super entidade distante das pessoas.”

Uma vez estavam reunidos a tentar explicar a alguém fora do partido o que a Iniciativa Liberal queria ser. Falaram de assuntos sérios, mas de irreverência e criatividade, de dar liberdade aos cidadãos sem desorganização, conta Rodrigo Saraiva. “Ah, então vocês querem ser uns rebeldes responsáveis?” “Isso, é isso”, reponderam. Isso é isso que querem ser.

“Rebeldes porque somos irreverentes na forma como apresentamos a mensagem, nos cartazes, na comunicação. Responsáveis porque a nossa mensagem é séria. Conseguimos o equilíbrio entre a credibilidade e a irreverência”, defende Arroja.

“Liberty is a soul’s right to breathe”, já diz um outro “Bom Rebelde”, aquele do cinema. Os rebeldes de cá usam blaser.

EXPRESSO, 14 de Maio de 2019