Diogo Prates, 18 de Dezembro de 2018

Algumas vezes o “homem comum” de Miguel Pinheiro ou o merceeiro de Havel não se comportam como as elites gostavam que eles se comportassem. Nessas alturas tiram os posters da janela. Ou saem à rua.

“Direita inorgânica do Observador” foi assim que tanto António Costa como Francisco Louçã se referiram ao jornalismo do Observador e aos seus leitores; esta semana ficámos a saber que nem só os jornais podem ser inorgânicos como os compostos químicos mas também as manifestações o podem ser. Miguel Pinheiro classificou assim os “coletes amarelos”: “O movimento é convenientemente inorgânico” no seu artigo “Os coletes-amarelos dos outros são óptimos”.

A denominação “inorgânico” pretende atribuir, seja ao jornal ou ao movimento, um carácter espontâneo e ao mesmo tempo irracional, sem liderança e sem um objectivo definido, o que é errado do meu ponto de vista. Realmente quem se manifesta não é um grupo organizado como um sindicato ou associação, mas sim aqueles que pagam impostos e não têm ninguém que os represente.

Convém começar do princípio, as pessoas que vestiram o colete sabiam que se manifestavam contra o aumento dos impostos sobre os combustíveis. Que depois essa luta tenha sido aproveitada por grupos extremistas e radicais que degeneraram em violência não pode apagar o óbvio: as pessoas sabiam perfeitamente porque se manifestavam. Não podemos julgar todos pela bitola do povo português, acomodado, muitas vezes apático e envelhecido.

Não existe nenhuma explicação racional para o verdadeiro abuso fiscal que se passa com o preço dos combustíveis em França e em Portugal. Os governantes têm que compreender que precisam diminuir a despesa pública, gerindo melhor e fazendo escolhas, não sobrecarregando todos em benefício de alguns. Aumentar impostos sobre os combustíveis e aplicar taxas de IVA reduzidas em festivais de música, touradas ou restaurantes não faz sentido pelo simples facto que o “homem comum” de Miguel Pinheiro passa bem sem jantar fora ou sem ir a um festival, mas muitas vezes não pode levar os filhos à escola sem o carro, pelo que é natural que se “revolte”, esperamos todos que pacificamente. Mesmo quando lhe dizem que a austeridade acabou mas afinal sobra-lhe o mesmo ou menos ao fim do mês.

“Há outra coisa que os “coletes amarelos” não são: eles não são o despertar do “povo” sensato que enfrenta uma elite desligada da realidade.” O problema, caro Miguel, é que se a elite política em Portugal não está desligada da realidade, bem parece estar. Só um exemplo: o uso de dados biométricos que foi rejeitado no Parlamento é obrigatório no SNS e noutros serviços do Estado, ou seja, aquilo que é aceitável para quem trabalha num hospital não é aceitável para quem trabalha na Assembleia da República…

No seu ensaio “Power of the powerless”, Vaclav Havel disserta sobre o dono de uma mercearia que tem um poster na janela com a frase “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos” e pergunta-se qual a razão daquele poster com aquela frase. Será que o merceeiro acredita genuinamente naquilo? Ou será apenas a forma que encontrou para não ser incomodado, a sua maneira de “viver em harmonia com a sociedade”, como se dizia naquela altura na Checoslováquia comunista?

Algumas vezes o “homem comum” de Miguel Pinheiro ou o merceeiro de Havel não se comportam como as elites governativas gostavam que eles se comportassem. Nessas alturas tiram os posters da janela. Ou saem à rua.

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