Ao invés do que supus, Macron tem desperdiçado as oportunidades para ser um agente da mudança. Aquilo que era um aparente europeísmo tem vindo a mostrar-se um eurocentrismo com toques de egocentrismo.

Aproximam-se as eleições para o Parlamento Europeu. Nos últimos anos os sinais de uma Europa em mudança foram sendo sublinhados com factos. O que vai acontecer a partir de Maio? Parece que a incerteza não é um exclusivo do Reino Unido e do Brexit.

Na Europa, tal como em Portugal, é preciso construir uma verdadeira alternativa e não uma simples alternância.

Desde Maio de 2015 que, aqui no Observador, fui analisando o processo de alteração política na União Europeia. A cada eleição num dos países europeus e em outros momentos, como o referendo que ditou o Brexit, olhava para as consequências que estes acontecimentos poderiam ter no espaço comunitário onde Portugal se insere.

A cada momento tentava manter a esperança de que os eurocratas em Bruxelas despertassem para a necessidade de reformar o projecto europeu, na perspectiva de o fazer evoluir e garantir a Europa como um espaço comum de liberdades e oportunidades. Porém, nos momentos seguintes, eles demonstravam que ou não estavam interessados em reformar ou não tinham a capacidade de entender os sinais que os cidadãos europeus iam transmitindo.

Como referi no primeiro artigo, sou daqueles para quem “não há extremismo que encante, nem radicalismo que convença.” e por isso sempre procurei actores que pudessem adicionar valor ao movimento de mudança em que acredito. Um movimento que confia na Europa como espaço comum, mas defende a necessidade de profundas reformas do projecto europeu e das instituições europeias.

Neste contexto, as últimas eleições presidenciais em França foram um grande momento de esperança por reforçarem uma visão reformista para a Europa. O percurso de Emmanuel Macron, desde que apresentou a sua candidatura até entrar no Palácio do Eliseu, criava as condições para integrar este movimento de transformação. Quer pelas propostas que defendia, quer pelo seu percurso profissional e político, parecia romper com a lógica cristalizada da alternância bipartidária.

Na Europa, tal como em Portugal, é preciso haver renovação.

Em “A mudança na Europa, 2017”, destaquei como «Macron, não apenas por ser um contraponto a Le Pen, mas pelo que tem demonstrado e defendido até agora, é um forte sinal que perante a saturação do cidadão para com os sistemas e partidos tradicionais, que o extremismo não é a única solução.» e em “Macron é moderno”, um artigo publicado no Expresso em resposta a Daniel Oliveira, defendi que Macron «representa as gerações que aceitam o progresso e nele apostam, representa uma visão liberal da sociedade. Macron não ultrapassou pela direita, nem pela esquerda, ele representa uma visão “em marcha” moderna que busca mais liberdade e mais qualidade de vida num mundo sem muros.»

Infelizmente, ao contrário do que supus, Macron tem desperdiçado as oportunidades para ser um agente da mudança.

Aquilo que era um aparente europeísmo tem vindo a mostrar-se um eurocentrismo com toques de egocentrismo. O artigo “Por um Renascimento europeu” que Macron dirigiu a todos os cidadãos europeus, publicando no site do Eliseu em várias línguas e escolhendo um jornal em todos os países comunitários, é a prova consumada. Directa ou indirectamente propõe a criação de mais meia dúzia de organismos europeus. Sobre questões tão relevantes como a reforma da zona euro, zero palavras.

Na Europa, tal como em Portugal, mais Estado não é solução.

Com Macron, tudo começou a descambar na proposta de aumento de impostos que deu origem ao movimento dos coletes amarelos, culminando com a resposta em que prometeu afinal dar tudo o que era exigido, tendo como consequência o aumento do défice público. Momento que decepcionou todos aqueles que, como eu, acreditámos em Macron.

Na Europa, tal como em Portugal, mais impostos não é solução.

Numa última tentativa de não ver derrotada a esperança, quis acreditar que teria sido um momento de fraqueza. Começava a sentir que Macron tinha saído do PS, mas o PS não tinha saído dele. E eis que ali mesmo no Palácio do Eliseu, bem ao jeito de Luis XIV, num momento “L’État, c’est moi”, Macron grava uma mensagem para um evento partidário do PS português.

Na Europa, tal como em Portugal, urge reformar para garantir um espaço comum assente na liberdade. Na livre circulação de pessoas, bens, serviços, capitais e oportunidades. Que 2019, nas suas várias eleições, seja um passo fundamental nesta mudança. E com efectivos agentes de mudança.

Nos últimos anos não me tenho limitado a analisar. Tenho dado o meu contributo para esta mudança tão necessária, estando envolvido no partido Iniciativa Liberal. E integrado numa família política europeia com quem sinto afinidade.

Uma família europeia que não impõe ditames, mas onde existe espírito de compromisso. Tal como deve ser uma família liberal. Uma família onde se inserem primeiros-ministros, como o holandês Mark Rutte ou o luxemburguês Xavier Bettel, comissários europeus como a dinamarquesa Margrethe Vestager ou o estoniano Andrus Ansip, eurodeputados como a holandesa Sophie In ‘T Veld ou o búlgaro Ilhan Kyuchyuk, autarcas como o Mayor de Mechelen, o belga Bart Somers e líderes partidários como o alemão Christian Lindner e o nosso vizinho Albert Rivera.

Nas eleições europeias o meu desejo é que o Ricardo Arroja e a Catarina Maia, os dois primeiros nomes já anunciados na lista da Iniciativa Liberal, sejam eleitos e nos próximos cinco anos contribuam, no Parlamento Europeu, para concretizar esta mudança, hoje mais necessária que nunca. Por uma alternativa que não seja mera alternância.

Rodrigo Saraiva
Fundador e membro da Comissão Executiva da Iniciativa Liberal

OBSERVADOR, 22 de Março de 2018